Arquivo do autor:Vitor Balan

Ouvir na aprendizagem

Você já deve ter ouvido falar daqueles cursos de línguas que funcionam com o aluno ouvindo as aulas enquanto dorme… Bom, apesar de não terem estudos que comprovem a eficiência desse método, a sua grande popularidade exemplifica a importância do saber ouvir no processo de aprendizado.

Desde que entramos na escola, ou mesmo antes, dentro de casa, escutamos orientações de nossos pais e dos professores, degraus que ajudam a moldar a escada do saber. Prestamos atenção e ouvimos, absorvendo a informação e a transformando em conhecimento. Nas organizações não é diferente.

Nós, como relações-públicas, muitas vezes exercemos o papel não só de informar os colaboradores da empresa em que trabalhamos, mas também de educa-los sobre determinada prática ou assunto. Para tanto, é fundamental que saibamos despertar interesse e manter atenção, para garantir que toda a mensagem seja transmitida, que o aluno esteja ouvindo.

De acordo com J. Bruner, importante psicólogo cognitivo, o papel do instrutor é o de incentivador dos alunos no sentido de descobrirem por si mesmos os princípios do conteúdo a ser aprendido. O instrutor e o aluno devem manter um diálogo ativo, através do qual o instrutor traduz a informação a ser aprendida em um formato adequado à compreensão do aluno. O currículo deve ser organizado em espiral, para que o aluno construa continuamente sobre o que já aprendeu. O aluno vai descobrir aquilo que já existe em sua estrutura cognitiva. O professor não é apenas um passador de informação.

É possível perceber um exemplo da importância do ouvir bem no aprendizado no filme Adam, de Max Mayer de 2009. Adam conta a história do personagem homônimo, um engenheiro que tem síndrome de Asperger. Adam começa o filme perdendo o pai e também seu vínculo mais forte com esse mundo que ele não entendia muito bem.

Por causa da morte do pai, Adam sofre uma série de consequências que o perturbam, como a ameaça de ter que sair do apartamento e a demissão de seu emprego, como responsável pela parte elétrica de brinquedos. Como todo autista, Adam precisa de estabilidade e atitudes repetidas, e tamanhas mudanças em sua vida o paralisam.

Quando finalmente a vizinha por quem Adam se apaixonou o convence a procurar emprego, ela resolve ensiná-lo a se portar em entrevistas e vencer barreiras que a doença lhe causava. Para aprender a se portar socialmente, como olhar nos olhos, apertar as mãos, notar brincadeiras ou sarcasmo, Adam teve que reunir muita concentração e realmente ouvir as aulas de sua namorada. O processo de aprendizagem dá certo e Adam consegue um emprego.

Processo semelhante ocorre nas organizações, onde há diversos tipos de colaboradores, mas que precisam ser igualmente ensinados sobre algum assunto. O processo dicotômico de aprendizagem deve ser levado em conta.

Para conferir, basta se lembrar sobre suas aulas de divisão, lá atrás! Aposto que a professora repetiu várias vezes e você ouviu com atenção e hoje não tem problemas em dividir 150 por 15, já aquela aula de eletrodinâmica que você dormiu… Não é tão fácil, é?

 

Referências:

(TOVAR, Sônia Maria; ROSA, Marilaine Bauer da Silva Santa.(ORG) Psicologia da aprendizagem. Rio de Janeiro: Agua-Forte, 1990.)

Rodrigo Sérvulo

Ouvir com os olhos

Sim, o nosso corpo também se comunica. No período da pré-história, por exemplo, o homem ainda não havia desenvolvido totalmente a linguagem verbal. Como demonstrar ao outro que a caça fugiu? Como conquistar uma mulher? Como mostrar chateação, tristeza?  Usar o corpo para se comunicar era uma questão de sobrevivência.

Com o passar dos séculos, nos esquecemos de que o corpo também fala. É claro que esta comunicação será mais ou menos acentuada de acordo com a espontaneidade de cada um e da necessidade do momento, mas não podemos negar que é um ato involuntário.

J.J Copper, escritor que atuou no exército australiano ensinando oficiais a como interpretarem e usarem da melhor maneira a linguagem corporal, diz que toda comunicação “pessoa para pessoa” é dissipada por três caminhos de linguagem: verbal, vocal, e não vocal.

Verbal diz respeito a tudo que é dito, e corresponde a 7% da forma de como a comunicação é feita. A vocal, que é a forma como falamos (entonação e ênfase em certas palavras), tem 38% de participação e, finalmente, a não verbal engloba 55% desta comunicação.

Cada gesto que fazemos com o nosso corpo é uma palavra, e cada palavra pode ser interpretada de maneiras diferentes. Muitas vezes, nos esquecemos de prestar atenção no corpo do outro e nos focamos apenas em como interpretar cada informação e responde-la da maneira mais rápida e melhor possível.

A comunicação feita pelo corpo costuma ser muito mais emocional e verdadeira que a verbal. E o que isto tem a ver com nós, comunicólogos? Ora, prestar atenção no corpo pode mudar totalmente o rumo da comunicação e ajudar a compreender melhor o que o outro está realmente querendo dizer.

Cruzar os braços, por exemplo, é um sinal de defensiva. Quem sabe o seu interlocutor está apenas fingindo que está te ouvindo e no fundo não está entendo nada, ou aquele é um péssimo momento para qualquer conversa. Será que não é melhor então mudar um pouco o modo de falar, escolher outras palavras ou até esperar outro momento?

Vamos analisar rapidamente a obra “Jealousy and Flirtation”:

A moça a direita está com os braços na cabeça, o que demonstra abertura, liberdade, bem estar. O moço está com o corpo inclinado em sua direção, o que demonstra interesse; suas mãos estão bem espaçadas em cima de seus joelhos, o que demonstra tranquilidade.

Já a moça da esquerda está com a mão no queixo, mostrando apreensão, preocupação. Sua outra mão está segurando o vestido, o que simboliza insegurança e timidez.

Esta obra ficou famosa por representar o sentimento de inveja. Ela, assim como cada gesto, pode ser interpretada de várias maneiras e traduzida em diferentes palavras, mas, perceba que no geral as percepções não são muito diferentes.

Olhar um quadro é interpreta-lo é muito mais fácil do que perceber esses gestos no desenrolar das comunicações, até por que eles mudam constantemente. Comece a reparar no modo como as pessoas gesticulam quando conversam com você, treine seu olhar para entendê-las melhor. Você certamente vai se surpreender com o que ouvir, ou melhor, ver!

Referências :  http://dicasderoteiro.com/2010/05/24/usando-a-linguagem-corporal-na-escrita/

(acesso em 04/09/2011)

WEIL, Pierre e TOMPAKOW, Roland. “O Corpo Fala: a linguagem silenciosa da comunicação não-verbal” . Editora Vozes, RJ , Petrópolis, 1998.

Gabriela Hopf

Quando quem fala também ouve

Imagine  a maior empresa brasileira. Saiba que ela é, também, a 12ª companhia de petróleo do mundo e possui seis subsidiárias, 40 unidades de negócio – sendo seis no exterior: Angola, Argentina, Bolívia, Colômbia, Estados Unidos e Nigéria – e três escritórios (Nova Iorque, Londres e Japão).

Juro que não estou falando de uma empresa fictícia para mera ilustração acadêmica. Alguns números relativos à operação da Petrobras no Brasil atestam suas dimensões: 92 plataformas, 14 refinarias, 15.390 km de dutos, 124 petroleiros, 7.020 postos e 102 aeroportos abastecidos. Ufa! Já deu para perceber que não estamos falando de uma empresa qualquer, né?

Já pensou em como deve ser difícil gerenciar todo o sistema de comunicação de uma empresa com esse porte e abrangência?

A comunicação Institucional da Petrobras é uma área formada por treze gerências . Além disso, cada unidade de negócio e cada área corporativa conta com uma agência de comunicação empresarial. Ou seja, no total, a Petrobras tem 52 gerentes de comunicação para manter todo o sistema de comunicação organizacional funcionando. Porém, temos de concordar que manter a uniformidade no discurso de uma empresa como essa é, no mínimo, um grande desafio.

Foi com esse desafio que Elza Maria Branco Jardim se deparou quando assumiu a gerência corporativa de comunicação interna da Petrobras em agosto de 1999. A principal necessidade era comunicar em um contexto de heterogeneidade e dispersão geográfica do público interno.

Até a criação da Gerencia Corporativa, as unidades de negócio não apresentavam um alinhamento estratégico de comunicação. Em outras palavras, todos falavam ao mesmo tempo e uma unidade não ouvia a outra, enfraquecendo o discurso, gerando fragmentação e, enfim, reduzindo a eficácia da Comunicação Interna.

A visão de gestão de Elza Maria foi considerar que não se pode gerenciar o todo por partes isoladas e não integradas e que a gestão dessa complexidade requer um projeto de parceiros dispostos a se corresponsabilizarem pelo gerenciamento.

Era preciso fazer a equipe de comunicação construir uma visão compartilhada sobre a realidade da Organização e criar um envolvimento comum sobre o papel, os desafios e os resultados esperados da Comunicação Interna da Petrobras. Ou seja, era preciso que a equipe de comunicação ouvisse a si mesma em todas as suas unidades antes de começar a comunicar para os mais de 130 mil profissionais da companhia.

A resposta para tal desafio foi a criação de um Comitê de Comunicação Interna composto por um representante (e um suplente) das 10 áreas de comunicação de subsidiárias, áreas de negócio e de serviços, centros de pesquisas, segurança, meio ambiente, saúde e recursos humanos.

Assim, reuniões mensais passaram a ser feitas e os locais de realização seguiam uma especíe de rodízio entre as áreas participantes a fim de ampliar o conhecimento de todos sobre a realidade de cada um.

A criação de um ambiente no qual todos podem falar e, principalmente, ouvir permite um estado de consciência do outro para melhor entender a complexidade da realidade ao nosso redor e possibilita o ato de cocriação de planejamento estratégico de comunicação que unifique um discurso forte capaz de sensibilizar e engajar o público interno por mais disperso que ele esteja. Em outras palavras, foi preciso, antes, promover o entendimento de quem fala para, depois, estruturar o discurso ao emissor final da mensagem.

Quer saber como isso pode dar certo em uma grande organização e conhecer os resultados encontrados pela gerente de Comunicação Corporativa da Petrobras? Não perca tempo e leia o capítulo 5 do segundo volume do livro “Comunicação Interna: A Força das Empresas” organizado por Paulo Nassar e publicado, em 2005, pela Aberje Editorial.

Vitor Balan

A Função Estatoacústica das Relações Públicas

O ouvido humano divide-se em três principais partes: ouvido externo, ouvido médio e ouvido interno.

O ouvido externo recebe as ondas sonoras e leva, por meio de um canal, ao ouvido médio onde essas ondas serão transformadas em vibrações mecânicas e transmitidas ao ouvido interno. No ouvido interno, as vibrações mecânicas geradas no ouvido médio estimulam os receptores e transformam-se em impulsos nervosos. Esse é, de maneira resumida, o ato de ouvir.

Porém, é importante notar que o ouvido interno possui uma complexa estrutura formada por sacos membranosos cheios de líquido que é especializada no sentido do equilíbrio. Tal estrutura está localizada em um conjunto de canais e cavidades limitadas por tecido ósseo. A esse conjunto de canais e cavidades, damos o nome de labirinto ósseo que apresenta uma parte anterior relacionada com a audição e uma parte posterior relacionada com o equilíbrio.

É por essa razão que muitos médicos e cientistas costumam dizer que o aparelho auditivo tem função estatoacústica, isto é, o nosso ouvido é responsável não só pela manutenção da audição como também do equilíbrio.

Mas, por que estamos discutindo isso em um blog de Relações Públicas e Comunicação Interna?

Simples! Porque, ao falarmos sobre a habilidade de ouvir, não estamos apenas (e simplesmente) falando em abrir um canal para o feedback dos destinatários de uma mensagem, mas estamos falando também (e principalmente) em ouvir a fim de criar processos de cocriação do ato de pensar a organização com os funcionários e públicos estratégicos.

Que tal começarmos a pensar juntos em uma função estatoacústica das Relações Públicas, uma vez que ela se torna responsável por ouvir e manter o sentido de equilíbrio entre os interesses da organização e os interesses de todos os públicos com os quais ela mantém relação?

Vitor Balan