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Ouvir na aprendizagem

Você já deve ter ouvido falar daqueles cursos de línguas que funcionam com o aluno ouvindo as aulas enquanto dorme… Bom, apesar de não terem estudos que comprovem a eficiência desse método, a sua grande popularidade exemplifica a importância do saber ouvir no processo de aprendizado.

Desde que entramos na escola, ou mesmo antes, dentro de casa, escutamos orientações de nossos pais e dos professores, degraus que ajudam a moldar a escada do saber. Prestamos atenção e ouvimos, absorvendo a informação e a transformando em conhecimento. Nas organizações não é diferente.

Nós, como relações-públicas, muitas vezes exercemos o papel não só de informar os colaboradores da empresa em que trabalhamos, mas também de educa-los sobre determinada prática ou assunto. Para tanto, é fundamental que saibamos despertar interesse e manter atenção, para garantir que toda a mensagem seja transmitida, que o aluno esteja ouvindo.

De acordo com J. Bruner, importante psicólogo cognitivo, o papel do instrutor é o de incentivador dos alunos no sentido de descobrirem por si mesmos os princípios do conteúdo a ser aprendido. O instrutor e o aluno devem manter um diálogo ativo, através do qual o instrutor traduz a informação a ser aprendida em um formato adequado à compreensão do aluno. O currículo deve ser organizado em espiral, para que o aluno construa continuamente sobre o que já aprendeu. O aluno vai descobrir aquilo que já existe em sua estrutura cognitiva. O professor não é apenas um passador de informação.

É possível perceber um exemplo da importância do ouvir bem no aprendizado no filme Adam, de Max Mayer de 2009. Adam conta a história do personagem homônimo, um engenheiro que tem síndrome de Asperger. Adam começa o filme perdendo o pai e também seu vínculo mais forte com esse mundo que ele não entendia muito bem.

Por causa da morte do pai, Adam sofre uma série de consequências que o perturbam, como a ameaça de ter que sair do apartamento e a demissão de seu emprego, como responsável pela parte elétrica de brinquedos. Como todo autista, Adam precisa de estabilidade e atitudes repetidas, e tamanhas mudanças em sua vida o paralisam.

Quando finalmente a vizinha por quem Adam se apaixonou o convence a procurar emprego, ela resolve ensiná-lo a se portar em entrevistas e vencer barreiras que a doença lhe causava. Para aprender a se portar socialmente, como olhar nos olhos, apertar as mãos, notar brincadeiras ou sarcasmo, Adam teve que reunir muita concentração e realmente ouvir as aulas de sua namorada. O processo de aprendizagem dá certo e Adam consegue um emprego.

Processo semelhante ocorre nas organizações, onde há diversos tipos de colaboradores, mas que precisam ser igualmente ensinados sobre algum assunto. O processo dicotômico de aprendizagem deve ser levado em conta.

Para conferir, basta se lembrar sobre suas aulas de divisão, lá atrás! Aposto que a professora repetiu várias vezes e você ouviu com atenção e hoje não tem problemas em dividir 150 por 15, já aquela aula de eletrodinâmica que você dormiu… Não é tão fácil, é?

 

Referências:

(TOVAR, Sônia Maria; ROSA, Marilaine Bauer da Silva Santa.(ORG) Psicologia da aprendizagem. Rio de Janeiro: Agua-Forte, 1990.)

Rodrigo Sérvulo

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Ouvir com os olhos

Sim, o nosso corpo também se comunica. No período da pré-história, por exemplo, o homem ainda não havia desenvolvido totalmente a linguagem verbal. Como demonstrar ao outro que a caça fugiu? Como conquistar uma mulher? Como mostrar chateação, tristeza?  Usar o corpo para se comunicar era uma questão de sobrevivência.

Com o passar dos séculos, nos esquecemos de que o corpo também fala. É claro que esta comunicação será mais ou menos acentuada de acordo com a espontaneidade de cada um e da necessidade do momento, mas não podemos negar que é um ato involuntário.

J.J Copper, escritor que atuou no exército australiano ensinando oficiais a como interpretarem e usarem da melhor maneira a linguagem corporal, diz que toda comunicação “pessoa para pessoa” é dissipada por três caminhos de linguagem: verbal, vocal, e não vocal.

Verbal diz respeito a tudo que é dito, e corresponde a 7% da forma de como a comunicação é feita. A vocal, que é a forma como falamos (entonação e ênfase em certas palavras), tem 38% de participação e, finalmente, a não verbal engloba 55% desta comunicação.

Cada gesto que fazemos com o nosso corpo é uma palavra, e cada palavra pode ser interpretada de maneiras diferentes. Muitas vezes, nos esquecemos de prestar atenção no corpo do outro e nos focamos apenas em como interpretar cada informação e responde-la da maneira mais rápida e melhor possível.

A comunicação feita pelo corpo costuma ser muito mais emocional e verdadeira que a verbal. E o que isto tem a ver com nós, comunicólogos? Ora, prestar atenção no corpo pode mudar totalmente o rumo da comunicação e ajudar a compreender melhor o que o outro está realmente querendo dizer.

Cruzar os braços, por exemplo, é um sinal de defensiva. Quem sabe o seu interlocutor está apenas fingindo que está te ouvindo e no fundo não está entendo nada, ou aquele é um péssimo momento para qualquer conversa. Será que não é melhor então mudar um pouco o modo de falar, escolher outras palavras ou até esperar outro momento?

Vamos analisar rapidamente a obra “Jealousy and Flirtation”:

A moça a direita está com os braços na cabeça, o que demonstra abertura, liberdade, bem estar. O moço está com o corpo inclinado em sua direção, o que demonstra interesse; suas mãos estão bem espaçadas em cima de seus joelhos, o que demonstra tranquilidade.

Já a moça da esquerda está com a mão no queixo, mostrando apreensão, preocupação. Sua outra mão está segurando o vestido, o que simboliza insegurança e timidez.

Esta obra ficou famosa por representar o sentimento de inveja. Ela, assim como cada gesto, pode ser interpretada de várias maneiras e traduzida em diferentes palavras, mas, perceba que no geral as percepções não são muito diferentes.

Olhar um quadro é interpreta-lo é muito mais fácil do que perceber esses gestos no desenrolar das comunicações, até por que eles mudam constantemente. Comece a reparar no modo como as pessoas gesticulam quando conversam com você, treine seu olhar para entendê-las melhor. Você certamente vai se surpreender com o que ouvir, ou melhor, ver!

Referências :  http://dicasderoteiro.com/2010/05/24/usando-a-linguagem-corporal-na-escrita/

(acesso em 04/09/2011)

WEIL, Pierre e TOMPAKOW, Roland. “O Corpo Fala: a linguagem silenciosa da comunicação não-verbal” . Editora Vozes, RJ , Petrópolis, 1998.

Gabriela Hopf

Quando quem fala também ouve

Imagine  a maior empresa brasileira. Saiba que ela é, também, a 12ª companhia de petróleo do mundo e possui seis subsidiárias, 40 unidades de negócio – sendo seis no exterior: Angola, Argentina, Bolívia, Colômbia, Estados Unidos e Nigéria – e três escritórios (Nova Iorque, Londres e Japão).

Juro que não estou falando de uma empresa fictícia para mera ilustração acadêmica. Alguns números relativos à operação da Petrobras no Brasil atestam suas dimensões: 92 plataformas, 14 refinarias, 15.390 km de dutos, 124 petroleiros, 7.020 postos e 102 aeroportos abastecidos. Ufa! Já deu para perceber que não estamos falando de uma empresa qualquer, né?

Já pensou em como deve ser difícil gerenciar todo o sistema de comunicação de uma empresa com esse porte e abrangência?

A comunicação Institucional da Petrobras é uma área formada por treze gerências . Além disso, cada unidade de negócio e cada área corporativa conta com uma agência de comunicação empresarial. Ou seja, no total, a Petrobras tem 52 gerentes de comunicação para manter todo o sistema de comunicação organizacional funcionando. Porém, temos de concordar que manter a uniformidade no discurso de uma empresa como essa é, no mínimo, um grande desafio.

Foi com esse desafio que Elza Maria Branco Jardim se deparou quando assumiu a gerência corporativa de comunicação interna da Petrobras em agosto de 1999. A principal necessidade era comunicar em um contexto de heterogeneidade e dispersão geográfica do público interno.

Até a criação da Gerencia Corporativa, as unidades de negócio não apresentavam um alinhamento estratégico de comunicação. Em outras palavras, todos falavam ao mesmo tempo e uma unidade não ouvia a outra, enfraquecendo o discurso, gerando fragmentação e, enfim, reduzindo a eficácia da Comunicação Interna.

A visão de gestão de Elza Maria foi considerar que não se pode gerenciar o todo por partes isoladas e não integradas e que a gestão dessa complexidade requer um projeto de parceiros dispostos a se corresponsabilizarem pelo gerenciamento.

Era preciso fazer a equipe de comunicação construir uma visão compartilhada sobre a realidade da Organização e criar um envolvimento comum sobre o papel, os desafios e os resultados esperados da Comunicação Interna da Petrobras. Ou seja, era preciso que a equipe de comunicação ouvisse a si mesma em todas as suas unidades antes de começar a comunicar para os mais de 130 mil profissionais da companhia.

A resposta para tal desafio foi a criação de um Comitê de Comunicação Interna composto por um representante (e um suplente) das 10 áreas de comunicação de subsidiárias, áreas de negócio e de serviços, centros de pesquisas, segurança, meio ambiente, saúde e recursos humanos.

Assim, reuniões mensais passaram a ser feitas e os locais de realização seguiam uma especíe de rodízio entre as áreas participantes a fim de ampliar o conhecimento de todos sobre a realidade de cada um.

A criação de um ambiente no qual todos podem falar e, principalmente, ouvir permite um estado de consciência do outro para melhor entender a complexidade da realidade ao nosso redor e possibilita o ato de cocriação de planejamento estratégico de comunicação que unifique um discurso forte capaz de sensibilizar e engajar o público interno por mais disperso que ele esteja. Em outras palavras, foi preciso, antes, promover o entendimento de quem fala para, depois, estruturar o discurso ao emissor final da mensagem.

Quer saber como isso pode dar certo em uma grande organização e conhecer os resultados encontrados pela gerente de Comunicação Corporativa da Petrobras? Não perca tempo e leia o capítulo 5 do segundo volume do livro “Comunicação Interna: A Força das Empresas” organizado por Paulo Nassar e publicado, em 2005, pela Aberje Editorial.

Vitor Balan

Exemplo prático: Falha na relação empresa-funcionário

Uma curiosa situação ocorreu com um conhecido. Carlos estava com um amigo comprando uma entrada para um clube. Cada entrada custava R$ 30,00 e, assim, Carlos desembolsaria R$60,00 pelas duas entradas. Na hora de pagar, porém, o funcionário foi mais rápido:

– Num precisa pagar mais de uma entrada não moço. Eu passo os dois. (E, olhando para o colega) Você não viu nada disso! Não é pra contar pra ninguém, mas é que o clube andou dando uns desfalques comigo… E agora eles vão pagar!

Carlos e seu amigo entraram felizes por terem pagado apenas uma entrada. Quem não deveria ficar nada feliz com essa situação é o “comunicólogo”, que percebe claramente que há algo de errado na relação empresa-funcionário. Toda relação exige uma comunicação, uma troca de informações e o canal que media essa relação deve ser sempre de mão dupla. Afinal, o funcionário é apenas um elemento da empresa ou também o seu representante? Além de compor a empresa e fazê-la funcionar, o funcionário encarna muitas vezes o papel da empresa que é formado por seus valores, política e filosofia, refletindo uma imagem da mesma. Mais do que pertencer à empresa, o funcionário deve se sentir parte dela. E não foi isso o que ocorreu.

Se pensarmos bem, o clube provavelmente não perceberá a diferença da venda de algumas entradas a menos em seu orçamento. Ter dado um “desconto” ao Carlos foi uma forma do funcionário canalizar a raiva que sentia. Mas há outras coisas que ele pode fazer para denegrir a imagem da empresa, como espalhar esta ideia a outros tantos funcionários. Além disso, o funcionário deve se sentir satisfeito com o seu trabalho: isso lhe dará motivação para explorar todo o seu potencial e obviamente refletir uma boa imagem da empresa. De acordo com o Guia Vocês/SA-Exame – “As Melhores Empresas para Você Trabalhar do ano de 2008” a rentabilidade sobre o patrimônio das 150 empresas classificadas ultrapassa 18%, enquanto o retorno das 500 melhores listadas no anuário” Melhores e Maiores de 2008”, publicado pela revista Exame, gira em torno de 8%. Os dois índices trabalham com pesquisas de satisfação feitas com os funcionários. Logo, podemos dizer que quando mais satisfeito o funcionário estiver, maior a rentabilidade da empresa.

O melhor seria certamente ter cortado o mau pela raiz antes que essa situação ocorresse. Isso não significa que todos os dias o superior desse funcionário deveria pergunta-lo se a empresa o está tratando de maneira correta ou não, mas sim que os meios de comunicação interna estão sendo mal usados ou que não há uma abertura mínima do superior para conversar com o funcionário. Além desta conversa, o funcionário pode utilizar a caixa de sugestão do jornal mural ou a intranet. A sugestão ou reclamação deve ser processada, analisada e pensada para que o funcionário obtenha uma resposta o mais rápido possível. O superior do funcionário provavelmente não deu importância a sua insatisfação. Se o funcionário estivesse totalmente errado em seu comportamento e reivindicasse algo que a empresa jamais lhe daria provavelmente seria demitido depois de um processo de discussão e análise da situação, o que dificilmente ocorreria. Muitas vezes ele agrega algo positivo dando uma sugestão que pode surgir de uma insatisfação ou incômodo seu com a empresa. Ele é assim uma rica fonte de informações que, quando bem aproveitas, só trazem benefícios.

Referência:
http://revistavocerh.abril.com.br/noticia/conteudo_432191.shtml

Gabriela Hopf